Gravação em S-log

Ao longo dos últimos ~6 anos, muita gente que filmava com DSLR começou a migrar pra câmeras mirrorless (sem espelho) – câmeras menores e mais leves, com lentes intercambiáveis e sensores grandes. Elas traziam o mesmo nível de qualidade de imagem das DSLR em um pacote menor e mais fácil de carregar. Mas o melhor lado das mirrorless se mostrou logo no começo, com a série GH da Panasonic: gravação de vídeo.

Na verdade, não tem nada que impeça uma DSLR ser tão boa pra vídeo quanto uma mirrorless. Porém, as as marcas que dominam o mercado – Canon e Nikon – meio que pararam no tempo no desenvolvimento de captura de vídeo nas suas DSLR. Com isso, duas marcas em especial – Panasonic e Sony – começaram a ganhar espaço no mercado de audiovisual. Hoje a gente fala da Sony.

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A Sony revolucionou o mercado das câmeras mirrorless em Outubro de 2013 quando lançou a Alpha 7 (mais conhecida como a7) – a primeira câmera mirrorless sem espelho do mercado. Em Abril de 2014 ela fez ainda mais: lançou a Alpha 7S (conhecida como a7S) – câmera mirrorless, full frame e otimizada para captura de vídeo. Trouxe um novo codec (XAVC-S, uma versão “lite” dos seus codecs profissionais XAVC e XAVC-L, encontrados em câmeras como a FS5 e FS7) e o S-log 2 (novamente, uma versão mais básica do S-log encontrado em filmadoras profissionais).

O S-log 2 é uma ótima ferramenta para se capturar uma quantidade maior de informação dentro de cenas com muito contraste – alcance dinâmico, conhecido no mercado como dynamic range. Enquanto câmeras que gravam em curvas “normais” capturam menos detalhe, o S-log pode capturar mais detalhes nas sombras e nos highlights antes de perder informações. Observe a diferença entre a Sony a7S em S-log 2 e a Panasonic GH4 em Cinelike D:

GH4 DR.jpg

A7S DR cópia.jpg

Veja como a Sony consegue capturar muito mais detalhes nas sombras da mesma imagem. Controlando a sua exposição da forma adequada, você pode evitar – por exemplo – que uma filmagem externa com muito sol e muita sombra tenha informação perdida e fique aquele branco estourado horrível.

Agora vamos pra parte técnica da coisa. Perfis Log são “gamma curves” – curvas de ajuste que a própria câmera aplica nos arquivos de vídeo que ela salva. Curvas convencionais, como o PP1 (normal), são curvas Rec.709.

Curva s-log.png

Curvas Rec.709 são projetadas pra produzir uma imagem agradável sem necessidade de pós produção. Pra fazer isso, essas curvas mantém os midtones (meio-tons) compatíveis com televisões e monitores convencionais pra que a imagem tenha um contraste natural quando vista em uma TV. Pra ajudar a lidar com highlights (realces, altas-luzes) essas curvas usam uma forma de “joelho” na curva (highlight roll-off) pra aumentar o alcance que a câmera tem de capturar highlights sem alterar os midtones. O problema é que isso significa que os highlights são comprometidos de certa forma, ficando bem lavados, sem contraste e é isso que dá aquele “look de vídeo”. Além do mais, isso também significa que se você superexpor a imagem (deixar clara demais), não importa quanto você mexa na imagem na pós – ela vai continuar uma merda porque todos os detalhes nos midtones foram levados pros highlights, onde a câmera não tem capacidade quase nenhuma de reter informações. Por isso que normalmente temos o costume de proteger os highlights – usuários de Canon vão entender bem esse costume -: se você deixa muito claro, você perde informação. É melhor, quando você usa gamma curves convencionais, até subexpor um pouco pra proteger os highlights.

Curvas Log como o s-log 2 e s-log 3 são bem diferentes. Pra estender o dynamic range dessas câmeras que filmam em 8-bit (explico isso melhor daqui a pouco), as curvas Log já não tentam ser compatíveis em termos de contraste com telas convencionais. Elas só se importam em pegar a maior quantidade de informação possível e colocar em um arquivo só. As imagens vão se tornar compatíveis com telas convencionais depois da pós produção. É um processo de dois estágios: filmar e colorir. Não dá pra usar uma imagem em Log sem colorização a não ser que você queira uma imagem sem contraste e quase sem cor.

S-log 2 grade:ungrade.jpg

Como curvas Log não precisam se conformar ao contraste de curvas Rec.709 – elas podem espremer mais informação, mais dynamic range, em um codec 8-bit.

Isso também significa que a câmera não precisa mais fazer um “joelho” na curva nos highlights, ou seja, tem muito mais informação lá também. Por isso, superexpor perfis de cor Log não costuma ser um problema e na maioria das vezes traz várias vantagens. Curvas Log tem um joelho nas sombras que imita o que vemos no mundo real, então os perfis Log não se dão muito bem com subexposição. Simplificando: a câmera não divide a informação de uma forma linear. Metade das informações do arquivo estão presentes no stop mais claro de luz; metade dessa quantidade está no stop abaixo, metade disso no próximo e por aí vai. Por isso eles trabalham melhor com superexposição: quanto mais você joga as informações da imagem pra faixa dos highlights, mais informação o arquivo de fato consegue reter. E não tema: ruído em arquivo LOG é normal – ele não foi feito para ser visualizado daquela forma. Na pós você vai trazer todas as informações de volta pros seus devidos lugares e, com isso, o ruído volta pras sombras e você nem percebe.

Isso mexe muito com a cabeça de quem vem da Canon pra Sony, por exemplo: quando antes você tinha que proteger as altas luzes, com Log você tem que proteger as sombras. Log subexposto fica ruim. Perde cor e fica com muito ruído. O melhor, pra evitar ruído, é expor o mais claro possível sem estourar e depois normalizar os níveis na pós.

Eu filmo todos os meus projetos pessoais com Sony há mais ou menos dois anos. Nesse tempo eu consegui desenvolver uma forma simples de acertar a exposição do S-log 2, utilizando as funções da própria câmera pra ajudar: eu uso as zebras (configuradas em 105+, ou seja, mostrando apenas as seções da imagem que estão de fato superexpostas) e o histograma. Configuro a exposição mais clara possível até começar a ver a zebra e, ao chegar nesse ponto, escolho quais informações quero manter – se não quero que nada estoure nos highlights eu desço a exposição em 1/3-2/3 stop e fico assim.

 

 

Aqui tem um guia muito mais detalhado de como fazer isso com a Sony A7S, mas serve pra qualquer câmera S-Log (em inglês).

Fonte das informações

Fonte das imagens:

Imagens do alcance dinâmico da a7S e GH4

Gráfico comparando S-log com Rec.709

Imagem dividida entre s-log com e sem colorização

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